mercredi 21 août 2013

A literatura útil - Uma teoria que se aplica à literatura industrializada ou pós-industrializada - Definição progressiva - O uso da língua e a sua relação com os leitores 71

A literatura útil não junta necessariamente o útil ao agradável, nesta concepção teórica. A literatura útil vem preencher um campo ligado ao conhecimento e à informação através de um sistema ficcional, sobretudo através do romance, embora outros tipos de literatura - outros géneros - possam servir a mesma causa da literatura útil. O que é a literatura útil? É aquela que tem um fundo não de formação directa do leitor mas que lhe fornece elementos de conhecimento, transmitidos pelo lado expressivo ficcional. Esta transmissão de conhecimento abre-se a todos os assuntos, embora não haja nenhuma prioridade específica de assuntos na literatura útil. Este género cobre percentualmente uma boa parte da produção actual da literatura convencional de "narrativa explicativa". A literaturalidade da literatura útil é, na parte produzida pelos países de cultura e de língua dominantes, exemplar, como modelo de fazer-se literatura que seja de utilidade informativa, podendo ser ao mesmo tempo uma literatura de nível ficcional elevado. É esta literatura que domina os mercados de hoje, criando uma relação de facilidade de leitura. A noção de responsabilidade está incluída no texto, o que torna este modelo ficcional uma matéria útil na medida em que transmite conhecimento e responsabilidade, ao mesmo tempo que funciona como narratividade ficcional que age no sentido da compreensão razoável (e imediata) do narrado. O leitor aceita as premissas desta ficção, recebendo como benefício o facto de passar a conhecer um assunto que lhe é transmitido não só e unicamente pelo processo expressivo. 
O fundo ficcional do funcionamento do romance utilizou sempre este princípio de utilidade que se dirige directamente ao leitor, pessoalizando a sua actividade emotiva de leitor. A ficção romanesca tem este carácter de não só transmitir um sensível mas também de colaborar no reconhecimento de assuntos tratados com conhecimento de causa pelos autores. Embora haja uma predominância da utilidade, a literatura útil não responde a qualquer nível comercial de agradabilidade, embora não se esqueça de apresentar a compreensão da narração de modo convencional, onde a clareza é o princípio impulsionador. 
Toda a literatura "explica" uma época, um autor e o público leitor agregado a certo e a cada tipo de literatura... Assim, a literatura útil, como todas as outras, determina a posteriori um conhecimento intrinsecamente literário que implica, da parte do leitor, uma rede extensa de conhecimento que cobre o terreno da própria literatura até aos assuntos tratados por ela. Este conhecimento intrínseco à literatura - a qualquer literatura - não entra na definição e na função de literatura útil. É um conhecimento literário que não está na função utilitária da literatura mas que transmite conhecimento literário ao mesmo tempo que outros onhecimentos intrínsecos ao assunto. A literatura útil é a que reflecte sobre assuntos contemporâneos e que participa, pela narração convencional e de compreensão imediata um lado informativo ou formativo. É uma literatura que cobre sociologica e literariamente uma parte da informação ligada à sua ficcionalidade.
Os autores que escrevem literatura útil têm consciência do modo que praticam e da ligação destas obras às correntes literárias do passado, assim como ao princípio de autonomia que se pede ao escritor, se bem que, sabem também que o modelo é de assimilação propositadamente facilitada, embora proposta em termos literários. Os escritores da literatura útil, nos países de língua e de cultura dominantes, são os mestres da literatura funcional e da funcionalidade da literatura na sua relação com os mercados e, portanto, com os leitores. Os autores da literatura útil realizam um intercâmbio entre a ficção e a necessidade de expressão de hoje, acompanhada por processos que dêem ao autor e ao leitor uma responsabilidade literária e civil. Esta literatura serve os desígnios dos mercados, dos prémios e dos valores, por nunca querer ser marginalizada. A literatura útil existiu sempre; os autores tinham como princípio não só praticar "actos de linguagem literários" mas também o papel de explicação dos comportamentos e das funções sociais que acamponhavam o ficcional. A ficção romanesca ocupa um lugar preponderante na realização ficcional de hoje. É por métodos literários realistas, por um realismo de aproximação entre o ficcional e a realidade, que esta literatura informa ou forma o leitor. Por vezes, a literatura útil de hoje tem uma funcionalidade literária de força reduzida. Esta ficção de grau reduzido tem como característica ser um descritivo aproximado da realidade. Não quero dizer que a literatura tivesse tido sempre este reduzido grau de ficcionalidade. O romance integrou a correspondente linha de sabedoria e de transmissão de conhecimento. O que distingue o romance de outros tipos ou géneros literários é este facto intrínseco à narratividade romanesca: a transmissão pela expressão de actividades múltiplas do indivíduo, dos grupos ou das comunidades. O que acrescento é o facto de ser uma literatura que, embora, como disse acima, tenha conhecimento do passado literário autónomo e "artista", se apresenta como um modelo que se aplica aos mercados - e que os serve - e às leis dos mercados funcionais, afastando-se da literatura "artista", aquela que terá como única funcionalidade prioritária a de ser literatura, para se integrar na literatura de mercado que as democracias produzem, quando ao seu melhor nível como democracia e como mercados livres. A literatura útil ultrapassou as fronteiras dos países de língua e de cultura dominantes para surgir nos países de língua de menor hegemonia. A literatura útil dos países de cultura e de mercados subalternos é imitativa e representa-se nos moldes criados pelas literaturas dominantes. É, por isso, menos útil e mais acentuadamente mercantil
As tendências do romance foram sempre de informar e formar o leitor. A percentagem de "ficcionalidade emotiva" foi sempre um veículo que tinha como finalidade transmitir impressões sociais e comportamentais. A literatura útil de hoje tem como característica o facto de ser dominante nos mercados e de afirmar, no melhor dos casos, uma responsabilidade da parte do autor que corresponde à necessidade de conhecimento responsável da parte do leitor. Um encontro entre estes dois polos da balança estabelece-se com relativa facilidade, assim como a relação aos sistemas de informação e de publicidade que circulam em torno deste tipo de produção ficcional.
A arte ficcional do romance afastou-se, pela força da indústria da cultura e do conhecimento através de formas convencionadas de ficção, dos critérios de produção autónoma de arte "artista". É um critério mais limitado de funcionalidade mercantil que fez com que a ficção romanesca se estabelecesse dentro destes critérios de instrumentalidade que a literatura "artista" tinha abandonado, apesar, repito, da sua intrínseca lição expressiva que se lê em qualquer obra literária.
À suivre.