mercredi 25 septembre 2013

Humildade gloriosa - Aquilino Ribeiro - Bertrand Editora, 1985 - O uso da língua e a sua relação com os leitores 98

Modificado a 26 de Setembro de 2013.
Romance histórico de um autor que, precisamente neste caso, é também um profissional de escrita artesanal, "pré-artista". Romance histórico sobre a figura de S. António (1195-1231, doutor da Igreja desde 1946). Aquilino facilita a leitura pelo lado doméstico da língua, na sua concepção mais limitada, a domesticidade da língua como condão que liga o autor ao leitor, como técnica profissional. Os argumentos do escritor são baseados na relação com o leitor. O autor procede por episódios sobre a vida de S. António sem que este romance histórico seja uma biografia. A concepção literária de Aquilino é a concepção clássica da composição da escrita segundo moldes que vêm das literaturas clássicas. O escritor está mais próximo dos escritores medievais e renascentistas do que dos modernos, não só pelo assunto mas pela maneira como desenvolve, estilisticamente, o conteúdo do romance. A sua visão literária é a do artesão. Aqui e noutras obras, Aquilino coloca-se esteticamente como se estivesse ainda num período "pré-artístico". O tema serve-lhe para desenvolver uma linguagem que, de alguma maneira, vai buscar elementos narrativos aos escritores medievais, sem dúvida escolhendo Dante como modo de cruzar os vários níveis de narratividade que são a religião, a mitologia, a lenda, a suposição, a História confirmada e a História transmitida por tradição oral... de modo a desenvolver a narração de forma alegórica, sem perder a noção da utilidade dialógica, processo que Aquilino escolhe para dar alguma vivacidade ao narrado.
O estatuto literário de Aquilino Ribeiro é contraditório. A contradição estará no facto de apresentar-se como escritor profissional quando a escrita é de tom artesanal, no sentido da justeza e da apropriação - e aproximação - entre a palavra e a função dela. Na sua prática artesanal não propõe nenhuma polissemia do discurso narrativo, embora não descuide de uma certa polifonia sonora do discurso narrativo, assim como do seu ritmo. Aquilino é um perito do aspecto rítmico da frase. A narração é um condensado linguístico com a sua base religiosa que lhe vem do conhecimento da narração em latim. As palavras pertencem mais ao vocabulário "savantizado" (culto, palavra aqui apropriada no seu sentido também religioso) do que à língua vulgar ou popular, a não ser nos diálogos, muito menos interessantes do que as partes narrativas. O diálogo de Aquilino, neste "Humildade gloriosa", é simplificado como um argumento comercial, uma parte de divertimento e de "savoir-faire" da parte do autor. Nos diálogos aparece o vulgar, ou a sua imitação; o típico, o exótico, o folclórico! A linguagem dos diálogos é culta apesar da imitação, como disse, do vulgar. O raciocínio que está por trás dos diálogos é o de um conhecedor e artífice da língua. É pelas descrições que o autor, conhecedor do léxico, ajusta o vocabulário ao que descreve e ao movimento narrativo. É no ajuste, na precisão artesanal da língua que está a sua especificidade linguística.
A obra literária é, para Aquilino, a representação da vida; para descrever a vida serve-se a propósito de personagens como a de S. António, inscrita num panteísmo literário. Aquilino serve-se da "Divina Comédia" (da intitulada por Dante "Commedia"; depois de Boccaccio, da "Divina Commedia", 1308-1321) (Dante, 1265-1321) como canevas linguístico e temporal, seguindo-a como modelo de pensamento historico-religioso. A teologia de que Aquilino rodeia S. António está próxima da descrita por Dante na "Commedia". A época é semelhante, apesar de Dante ser contemporâneo das ideias que desenvolve, e de que se serve para escrever a sua "Commedia", e de Aquilino estar distante dos factos antonianos de sete séculos. O trabalho de Aquilino coloca-se numa História muito mais distante. Todas as influências e informações são boas para levar a cabo a ficção histórica, apesar de haver poucas indicações sobre a vida de S. António. Aquilino narra episódios onde a santidade e a moral são da personagem e também do escritor. Aquilino não realiza a distância suficiente para escapar a um certo moralismo conservador. É nos diálogos que joga com a veracidade e a vernacularidade da língua, se bem que, e apesar do seu aspecto moralizante, é na narração descritiva que o texto de Aquilino propõe uma capacidade narrativa e explicativa da natureza e de outros elementos da compreensão do mundo, de hoje e de ontem, que mostram a capacidade fenomenal do escritor escriba. A falta de documentação e de dados sobre a vida de S. António forçam Aquilino a imaginar tentações da carne, como se se colocasse na esteira de Flaubert, sem que o S. António seja o mesmo. O das tentações, assinalado em várias obras pictóricas e na obra de Flaubert, é o S. António, o grande, eremita no Egipto (251-356). Para completar a sua obra, Aquilino serve-se de todas as obras cultas e iconográficas para ilustrar o que lhe falta, seguindo por vezes o gosto de descrever tentações semelhantes às que "afligiram" o outro S. António. 
Aquilino utiliza os argumentos segundo o grau teológico que os cerca. A medida narrativa do escritor baseia-se no que a literatura anterior lhe forneceu como criadora-inventora de um mundo medieval: Dante, o romantismo histórico e ficcional, a pintura sobre as tentações, os pintores tenebrosos (Luca Signorelli)... Todo este mundo, organizado segundo uma teologia arcaica e dogmática, serve de fundo de desenvolvimento à acção narrativa. Aquilino escreve sobre os livros que formaram a teologia e a lei jurídica - cf. p. 75 e seguintes desta edição; todo o capítulo VIII é uma demonstração de sabedoria dos textos fundadores da religião cristã. O nível de conhecimento é desenvolvido com inteligência, não sendo pura demonstração, embora haja demonstração de um saber que a sua formação seminarista lhe deve ter dado. Mas não só; Aquilino interessava-se por todo o documento que dissesse respeito ao conhecimento da realidade teológica da qual saiu, embora tenha conservado todos os seus valores; e, entre eles, o valor descritivo de quem não abandona os sintomas da religião cristã e da existência de Deus. Aquilino é um crente apaixonado pela narração panteísta, apesar de, por vezes, perder o sentido da ficção, para passar à descrição histórica de uma documentação sobre os dogmas e a formação filosófica e histórica que deram origem ao que é a igreja, da época e de hoje. Demonstra um conhecimento teológico e histórico, ocupando o lugar do santo. A humildade do santo é superior à de Aquilino Ribeiro que se deixa ir na demonstração teológica. 
Este tipo de narratividade actua contra a sua "literaturalidade", na medida em que implica uma lógica narrativa que exclui o ficcional. O tratamento exaustivo da descrição e da documentação, o fazer mais-literatura, carrega o texto ficcional, acabando por ser uma obra que informa o leitor sobre vários aspectos da vida religiosa mas esquecendo-se de o informar sobre a constituição da própria literatura, sobre como se constitui a "literaturalidade". A obra sobrecarregada serve uma retórica. Barthes imaginou o grau-zero da literatura em Camus, no "L'Étranger", antes de tudo e de todos. Aqui, a luxuriante arte de escrever compõe-se como uma anti-ficção, tal o peso da carga narrativa que não deixa o leitor entrar na equação entre o que a palavra é e o que ela quer dizer. Os "actos de linguagem" de Aquilino Ribeiro são demonstrativos do artesão que impõe a sua artificialidade até ao ponto de a obra ter como finalidade ser só um artefacto "bem executado", na medida em que o escritor é exímio no tratamento da retórica, literária ou não. O problema é o que resulta desta retórica: a crença na imortalidade da palavra como se a palavra não fosse um "acto de comunicação" mas um utensílio fixo da retórica, um cinzel de elaboração do estático. A literatura é concebida como uma obra religiosa, não como uma teologia, mas como trabalho de decoração artesanal do Verbo. Aquilino Ribeiro coloca-se ainda num período do escriba profissional onde a problemática estética estava ligada prioritariamente à grandeza da linguagem que deveria estar fora de qualquer tentativa de grau-zero. A escrita e o escriba identificam-se pela exegese do texto e pela grandeza que transmite aos "actos de linguagem" uma certeza de perfeição, não da obra, mas da palavra, do Verbo. Aquilino está ligado à cultura da igreja; ou melhor: para Aquilino a cultura é a igreja que a sustenta; a escrita passou para o plano do profano sem que tenha perdido o seu baptismo. Em contrapartida, e paradoxalmente, o popular chama Aquilino a escrever diálogos que lhe estavam no ouvido, assim como atitudes e hábitos que são descritos com familiaridade e sem disfarces ou demagogias. Só peca por um certo pitoresco na elaboração dos diálogos, pitoresco que tenta representar o espírito sincero dos simples, num jeito marcadamente para-religioso. Aquilino joga com o conhecimento profundo que tem do comportamento dos seus compatriotas. É um observador inteligente e culto da relação entre o Verbo gnóstico e a pontualidade da língua. Para Aquilino, a palavra atinge o centro do alvo, acerta no dez por obra e graça do talento artesão de que se queixa em permanência, como um trabalhador exausto: escrever é um trabalho que não compensa. O facto de trabalhar a cinzel com um artesão impede que a controvérsia se esclareça na ficção e que a estética penetre conscientemente o texto, como as modernidades o fizeram. Aquilino está próximo dos pintores que realizaram "affreschi": desenha uma cena e pinta-a sobre a superfície maior que encontra. O desenho e a pintura são largos, clarificadores e narrativos. A escrita aquiliniana é vasta, pintura "affrescata" de temática bíblica ou, pelo menos, enchida de panteísmo miracoloso. 
As questões literárias sobre a autonomia da escrita foram elaboradas pelas literaturas do século dezanove e do século vinte que Aquilino Ribeiro conhecia, ou soube que existiam. As controvérsias geradas pelas literaturas e pelas ciências humanas - para não falar das modificações de comportamentos que provenieram das mudanças provocadas pelas culturas científicas - deveriam ter dado que pensar a Aquilino Ribeiro; ou por outra, algumas destas controvérsias sociais e estéticas deveriam ter penetrado no escritor. Se penetraram, a sua literatura não o transmite. Os problemas da ficção, propostos por escritores como Dostoievski, Kafka, Joyce, Pessoa, Yeats, Faulkner, Virginia Woolf... (o número é infinito) não tocaram Aquilino? Era o escritor pouco propício a controvérsias que não dissessem respeito ao local e à linguagem religioso-arcaica? Corrijo: a linguagem de Aquilino é muito mais religioso-culta do que arcaica, salvo que, o tratar os "actos de linguagem" deste modo, coloca a língua escrita num plano que a liga inevitavelmente a um passado arcaico. Não há presente efectivo, vivido... a não ser nas suas obras não ficcionais: "Alemanha ensanguentada", "É a guerra", "Um escritor confessa-se"... Aquilino viveu isolado da cultura do seu tempo. E o que o isola é a própria escrita. 
As temáticas aquilinianas andam à volta de um mundo que se esqueceu dos asssuntos fundamentais provocados pelas variantes históricas. Aquilino parece viver à parte, sendo um homem de cultura; melhor: um homem culto. A cultura significava duas facetas: a primeira seria a cultura como argamassa que cimenta uma estrutura social arcaica - e que se deve manter arcaica para confirmar a sua autenticidade; a segunda seria a que abre horizontes novos através da ciência, dos aspectos inovadores das artes e das experiências sociais novas, tendo como base o desenvolvimento das ciências humanas ou sociais. A cultura no primeiro sentido faz o homem culto que era; a segunda versão formaria um interveniente no seu mundo coetâneo que só raramente aparece na sua ficção não autobiográfica; em contrapartida, este aspecto cosmopolita e ciente dos problemas modernos, aparece na ficção autobiográfica e nos documentos, depoimentos ou outras formas de escrita que utilizou. Os exemplos estão nas formas não ficcionais citadas. Nas suas obras autobiográficas ficcionais surgem, por vezes, aspectos que incluem a segunda das versões da cultura coetânea. 
O escritor Aquilino parece pensar numa literatura que o qualifique como "artista" duplamente fechado pela sua escrita e pela sua renúncia à modernidade. E tudo isto num plano contraditório sem controvérsia, embora o resultado nem sempre seja conservador; basta a sua riqueza narrativa. A surpresa causada pela natureza - fauna e flora - provoca no autor uma visão narrativa de grande capacidade imaginativa na disposição da frase e na escolha dos "actos de linguagem". As páginas de descrição-narração denotam as prioridades da ficção aquiliniana. Os diálogos perdem por ineficácia quando em confronto com as descrições. São diálogos (ou monólogos) por vezes "populares" sem que caia na demagogia ou em populismos. As personagens analfabetas de Aquilino são transformadas pela linguagem escolhida pelo escritor, pela escrita que não imita liguagens primitivas. O cómico truculento dos diálogos deve ter sido inspirado pelos romances de cavalaria, por Cervantes, por Walter Scott... e pelo cinema. 
Por outro lado, a inocência crítica e literária de Aquilino é um dos obstáculos à sua leitura reactualizada. Faltam-lhe elementos actuais ou processos que se mantenham actuais, referências não ilusórias. A ficção aquiliniana peca por não se confrontar com a revolução dos tempos. Aquilino encara o tempo de outro modo na sua obra não ficcional, como disse. Os exemplos fundamentais são os citados "Alemanha ensanguentada", "É a guerra" e "Um escritor confessa-se". Aquilino conta com a inocência frágil do leitor que confirme a qualidade imaginativa do escritor. Os tempos mudaram, esta inocência perdeu-se; a leitura tornou-se unicamente literária, no melhor dos casos, quando se lê Aquilino Ribeiro, hoje. Os leitores em geral, se não os preparam para a leitura atenta das obras literárias exigentes, se não os preparam ao conhecimento ou ao desejo e necessidade de conhecimento das expressões, se não os preparam ao ficcional literário autónomo, não aderem ao que o escritor propõe. Será abandonado pelos leitores mas não ainda esquecido. O esquecimento é o abandono dos estudiosos, se por acaso ninguém se decide, pela análise, pelo estudo do que se escreve e com que língua se escreve. A análise literária tende a perder a autonomia e a subordinar-se ou a) às indústrias que vão do livro ao jornal e às revistas, ou b) às valorizações por ordem dos "sublimes" e dos "belos", sem constatação crítica. O esquecimento é muito mais gravoso, na medida em que significa que o abandono público é irremediável. Se não há renovo crítico, as literaturas autónomas do passado e do presente não têm finalidade. Ficam as leis dos mercados a dominar opiniões e a formar cérebros medíocres, em vez de críticas que abram para outras maneiras de ver. 
O posicionamento crítico do autor deveria evidenciar-se de outro modo, já em 1953, data do final da escrita desta obra de ficção. Hoje, os raciocínios elaborados pelo escritor não têm lugar, apesar de Aquilino fazer, neste caso, referência aos tempos de S. António. Não é o facto histórico e a narração de um facto do passado longínquo que põe em causa o trabalho aquiliniano; é a sua maneira de confrontar-se com as ideias e com o que "escrever quer dizer". Só uma análise do seu caso literário seria um método para ler-se Aquilino, e muitos outros escritores. Mas fica o resto do problema: a atitude mental da personagem antoniana é hoje uma incongruência que mereceria, da parte do autor, outra distância ficcional ou outro método literário. Aquilino deixa-se guiar pelo mental reaccionário da época em que escreveu a obra, mais do que pela maneira como os cristãos viam o mundo no tempo de S. António. As citações e as referências cultas fazem uma literatura clássica; a prosa apoia-se nas referências para ganhar um estatuto, uma garantia de prestígio. Marguerite Yourcenar procede do mesmo modo na sua obra "Mémoires d'Hadrien"; no entanto, e ao contrário de Aquilino Ribeiro, refere-se a Hadrien (Adriano) sem usar de referências pessoais e textuais que se aproximariam falsamente da época, de qualquer modo, à parte as referências qualificadoras; a linguagem da escritora está próxima do actual; as referências ou são históricas, quando se trata de enviar o texto para a época de Hadrien, ou são pessoais, para dar ao pensamento de Hadrien uma perspectiva que o colocaria mais perto do leitor coetâneo da obra. Aquilino entra no texto do mistério medieval, não propõe uma visão actual do santo, sem, "pour autant", praticar uma biografia. Hermann Broch trata de Virgílio de modo igual ao de Hadrien no seu "Der Tod des Vergil", 1958 (A morte de Virgílio). 
No "Humildade gloriosa" Aquilino não faz um romance pseudo-biográfico. S. António intervém nos diálogos - não se trata de um monólogo, como nas obras dos dois escritores citados, Yourcenar e Broch. Estes escritores sabem que só no plano psicológico e do sensível é que o tempo faz menos desgastes. (resta saber...?) Uma certa intemporalidade é obtida por este método; o actual é reflectido deste modo. Aquilino foge à compreensão possível de S. António nos dias de hoje, fazendo um romance histórico religioso, de proselitismo religioso, apesar de clarificar o sentido da fé nos tempos medievais. 
A escrita literária não é só a escrita; é muito mais; mas para ser mais é preciso que ela tenha inventado o ser menos. O excesso provoca retórica e "biblismo", artesanato com função decorativa, sem que a ficção se alimente dela própria. Fica um exoterismo literário, de grande domínio linguístico mas de pouca capacidade de controvérsia sobre o que é a literatura. Nada de urgente surge nesta literatura como surgiu nas figuras literárias da época de Aquilino Ribeiro. Para não falar das urgências que a literatura forneceu depois da morte de Aquilino e que são desmistificadoras da sua "arte" artesanal: Ingeborg Bachmann, J. M. Coetzee, Paul Celan, Max Frisch, Peter Handke, Elfriede Jelinek... e para não falar dos seus contemporâneos como, por exemplo, entre muitíssimos, Borges, Bruno Schulz... São estes confrontos que fazem ver que Aquilino não saiu do seminário literário. 
Aquilino Ribeiro não segue os princípios de uma biografia; trabalha por episódios a vida do santo, traduz factos históricos que transforma em cenas onde o ficcional, apesar dos limites de que falei acima, toma o de cima. O autor pensa, por vezes, que é preciso divertir o leitor: um modo de desanuviar o texto? "Comércio" ou "entente cordiale" com o leitor? O capítulo XIX é um exemplo de narratividade próxima da "natividade" do texto, do nascer de um texto, da "alegria" que o autor exprime quanto à "natividade" de um texto. A prosa de Aquilino tem este aspecto de contentamento, faz referência à própria "natividade" do texto que surge por obra de uma espécie de "Anunciação" pela qual os deuses da escrita alimentam o poder narrativo de Aquilino, que crê na palavra como gnose e como dom. Aquilino faz do santo a santidade da sua própria escrita. A humildade gloriosa é a do escriba que conhece os códigos e que tem como função anunciá-los.
A literatura contém a sua História, mas não contém automaticamente a sua alteração. É no sentido de a preservar que Aquilino se aplica. O escritor conserva a História, ao contrário dos dois escritores citados que elaboraram a partir da História da literatura mas para fundamentarem outra História (ou, no pior dos casos, para a continuarem). Aquilino pensa que a literatura - o uso da palavra - é intocável, no seu aspecto ligado ao significado veicular do pensamento, à sua verdade intrínseca e à transmissão do melhor pensamento. A literatura de Aquilino reflecte a cultura clássica e a concepção religiosa do verbo; não é só reflectir, é ainda escrever e descrever a cultura literária como os escritores que elaboraram a literatura tendo como teoria a ligação da literatura ao exercício da excelência da palavra, do Verbo, e tendo em conta que o acto literário é o do artesão qualificado, acto literário que tem a sua origem na adivinhação que pretende que a relação entre o conhecimento e o uso da palavra é fornecida pela gnose. Aquilino re-conhece as palavras que são para ele símbolos literários que transportam mais do que a função literária em si; são transposições de toda a cultura, entendida a cultura como um "réseau" que vem dos antigos até hoje e que se não desmente. É por isso que a literatura de Aquilino Ribeiro é excessiva, carregada de alusões que vão do religioso ao pagão, embora o paganismo de Aquilino seja uma referência permanente a um panteísmo conservador da natureza do "acto de linguagem". Se a natureza se conserva, evoluindo conforme as estações, assim a literatura não tem que apresentar mais do que esse "réseau" cultural de que é feita. A literatura é obra estática, a não ser que o verbo a transforme numa extática da ordem do religioso, milagre de se apresentar a juízo diante de Deus. 
Pressente-se no romance algumas atitudes narrativas como as de Dante na "Divina Comédia". Dante atravessa as provas até ao Paraíso, como testemunha dos mortos. A prosa de Aquilino declina-se do mesmo modo. Não é só no seguir Dante, que lhe inspira a mesma época, com uma diferença de um século; distância menor, entre Dante e o santo, à distância da vida de S. António em relação ao escritor. Não é por acaso que o romance fala da alma do santo depois de morto, como os mortos da "Divina Comédia". 
À suivre.   

jeudi 19 septembre 2013

Giallo d'Avola - Paolo di Stefano - Selerio Editore, 2013 - O realismo descritivo - O uso da língua e a sua relação com os leitores 72

O realismo descritivo faz o efeito de literatura de distracção e de função útil na medida em que não procura só a narração mas obedece a princípios éticos de explicação do mundo ou de um mundo e do modo de vida de uma época e de um lugar. Crónica ou reportagem sobre o que foram os modos de vida e como se desenvolveram as contradições sociais, no melhor dos casos. A literatura útil ganha elementos de realismo crítico social, descreve ao mesmo nível do que a foto social dos anos 20 até aos anos 50, sobretudo a fotografia a preto e branco de fotógrafos americanos, aquela fotografia que influenciou o campo imaginativo e situou o campo narrativo de Faulkner. A narrativa é fotográfica e fotografa a crueza da realidade: duas realidades ou dois realismos: a realidade factual e a descrita pelo autor como verdade relacionada com o comportamento do cérebro: a realidade é a realização cerebral da narratividade, é a realização simultânea do que se escreve e do que se pensa. Não há interferências entre a escrita e o cérebro no que diz respeito à transcrição racional dos "actos de linguagem".
O realismo do século dezanove correspondeu a um modo de narrar que quis concretizar pelos "actos de linguagem" um posicionamento que procurava a mais curta distância entre os "actos de linguagem" e os factos. O concretismo "realista" dava a impressão não do desenvolver dos factos mas da narratividade e discursibilidade que o cérebro parecia praticar de forma natural, no seu funcionamento normal, e que, por sua vez, correspondia ao que se procurava transmitir pelos "actos de linguagem" ligados à racionalidade da época e aos leitores. É raro encontrar uma poesia realista - encontra-se, em contrapartida, muita poesia neo-realista ou realista social - que, neste período do "realismo" da prosa, tenha conferido à palavra poética as mesmas propriedades, e aos "actos de linguagem" a mesma proximidade que a prosa intencionalmente propôs. Este "realismo" foi seguido por muitos outros e antecedido por mais outros ainda. A confiança na narratividade não se discute por estar a prosa destes escritores próxima da reportagem; os "actos de linguagem" tendem a eliminar a carga polissémica até serem não os próprios actos, o que seria o impossível, mas a mais adequada realidade linguística que se confunda com o trabalho da mente e com o que o leitor desejava, numa época racional de positivismos que só mais tarde Bergson, entre outros, viria a pôr em dificuldade, assim como as teorias freudianas.
A elaboração deste romance tende a parecer-se com o que Leonardo Sciascia e Andrea Camilleri escreveram. O tom está na sequência destes autores, cujas formas e estilos confirmam a Paolo di Stefano de estar no "bom caminho". O inquérito-romance funciona de modo a entrar nas várias "familiaridades" que a "domesticidade" implica, e de que já falei noutros artigos deste blog. O que é a domesticidade? Não é só o que diz respeito ao doméstico - tendo o conceito de domesticidade a sua origem no que é deveras doméstico - mas tudo o que se identifica quando da leitura, por ser usual e do conhecimento intrínseco dos leitores. A domesticidade desenvolve-se em todos os meios possíveis, mesmo nas obras de ficção de características urbanas, onde a domesticidade se serve das teorias do comportamento e da linguagem que confirmam o que já se conhece. Este sentir-se à vontade na literatura, seja ela, domésticamente falando, urbana, é o resultado da aplicação de "actos de linguagem" que conferem ao leitor um processo de re-conhecimento: trata-se de uma comodidade dos "actos de linguagem" que transportam o leitor por caminhos conhecidos que dizem respeito ao comportamento social da língua e à lógica comportamental, os dois elementos fornecendo confiança ao leitor; este conceito de domesticidade encontra-se nos romances policiais, por exemplo, onde o desenvolvimento do canevas é relativamente sempre o mesmo; encontra-se nas literaturas industriais ou pós-industriais que querem estar próximas dos leitores - dos públicos... A domesticidade está no que o autor desenvolve através de "actos de linguagem" estafados, gastos e usados segundo formas de negociação literárias que implicam o re-conhecimento do valor linguístico e comportamental da linguagem usada e do comportamento em si. 
A elaboração-relatório deste romance, embora a temática seja aqui menos social do que nos livros de Sciascia - Sciascia (1921-1989) tinha uma linguagem muito menos doméstica, muito mais racional e minuciosa, assim como uma linguagem baseada na cultura dos clássicos da literatura, dos clássicos franceses, entre outros, o que implica um afastamento do re-conhecimento da domesticidade; a frase de Sciascia afasta-se do re-conhecimento (imediato) doméstico para aplicar princípios de racionalidade que implicam conceitos literários desenvolvidos pela responsabilidade cultural do autor que se exprimia por "actos de linguagem" carregados de literaturalidade, de polivalência linguística, carga que os "actos de linguagem" domésticos não têm. Sciascia elaborou "actos de linguagem" que contêm fluidez, linhas de fuga que levam o leitor a perspectivas que se descobrem à medida da leitura, sendo a linguagem de Sciascia um implicar da própria elaboração mental e cultural do leitor. O romance de Paolo di Stefano é um mero caso jurídico sem Máfia, um erro jurídico analisado pelo autor de forma narrativa simplificada e explicativa, uma reportagem que se intitula romance para que a sua elaboração seja - precisamente - baseada no re-conhecimento imediato da língua e do que se quer contar. Livro de história narrativa, de ficção sem ficcional, baseado na irrelevância social dos imputados que não se sabem defender e que caem nas malhas da justiça mais absurda - e cega. O que o autor não relata é precisamente a falta de "valor simbólico" dos dois imputados que, não tendo a) nem linguagem pessoal explicativa do que fizeram, nem b) estatuto social adequado a uma defesa personalizada do que fizeram (ou não fizeram) dando a entender que não têm personalidade, sendo analfabetos, são, portanto, explorados e desleixados pela justiça que, não encontrando interlocutores convenientes, os desclassifica imediatamente. Não é tanto a injustiça que está em jogo quanto a deficiência face à justiça a que os incapazes ou indefesos, por vários critérios de origem social, se submetem, nos sistemas actuais de valorização pelo estatuto de cada um. A justiça - e não só a justiça, mas a procura de emprego, a relação hospitalar com os médicos, a relação hierárquica com os chefes... - não considera relevante um imputado que não tenha capacidade racional de resposta e de afirmação pessoal pelo discurso. O modo de representar-se a própria personalidade é um facto social importante e geralmente desclassificado quando a pessoa não tem capacidade explicativa. Neste caso, o autor não faz referência a este estatuto preponderante do corpo social, sendo o romance-relatório-inquérito levado a fundo dentro de uma fórmula onde a domesticidade ocupa um lugar prioritário sem grande explicação dos factores sociais. A injustiça não vem só da Justiça; vem também, e sobretudo, do estatuto dos dois imputados, dos dois pseudo-criminosos: iletrados e sem noções sobre o que é uma defesa dos próprios interesses, jurídicos ou não, sendo no campo da justiça que o caso aqui se apresenta. Os protagonistas não sabem como organizar a defesa, a justa argumentação e a organização dos raciocínios de defesa. Indefesos. É este o problema sobre o qual o autor não se pronuncia, sendo o romance-relatório um inquérito que acaba com a resolução do problema criminoso sem que se resolva o problema da injustiça praticada sobre quem não tem argumentação lógica e poder de convicção pessoal: p.222: "Salvatore Gallo cominciò a picchiare i pugni e la testa sulle sbarre, aggrappato ai ferri della gabbia, cadde in ginocchio e suo figlio si inginocchiò con lui, finché i carabinieri li trascinarono via così attaccati l'uno all'altro che sembravano una sola mostruosa statua a due teste." O autor descreve esta impotência sem se dar conta, no seu inquérito, de que a injustiça começa nesta relação de domínio sobre os dois protagonistas.
A descrição utilizada pelo autor é típica da domesticidade, como se entre o autor, o narrador e o leitor houvesse perfeito entendimento mental sobre o que se narra: nada se discute, aceitam-se os termos qualificativos do discurso sobre os dois protagonistas. O narrador confunde-se com o desejo realista do escritor: nada de supérfluo se forma, a não ser o que vem dos interrogatórios; o romance é funcional como um relatório. O comentário social é compassional e coloca o narrador-autor num plano ético favorável, perdendo o carácter analítico, para servir-nos uma literatura de conveniência. A explicação dos "actos de linguagem" é jornalística - crónica romanceada para melhor entrar nos mercados da literatura. A prova está no prémio que recebeu: Premio Viareggio-Rèpaci 2013. As descrições estão integralmente inscritas na domesticidade, numa adequação entre a linguagem doméstica e os actos "primitivos" e re-conhecidos dos e pelos leitores. A relação doméstica anula a intimidade e a personalidade dos protagonistas... O conhecimento pertence ao domínio público, pertence a todos, à comunidade, mesmo quando a "verdade" é camuflada, secreta, esotérica. O autor pratica uma escrita "mafiosa" no sentido em que o inquérito não abstrai dos princípios da comunicação sob pressão mafiosa que existia na Sicília dos anos 50 e 60. Paolo di Stefano não actua contra o interno da língua e do mental mafiosos; a relação doméstica está na rua, embora a comunicação dela esteja subordinada aos princípios da omertà: p.35: "Tutti, in paese, erano venuti a sapere tutto, come se stessero lì in caserma a sentire l'interrogatorio di Jano. E per tutti era sinceramente difficile credergli." O silêncio siciliano implica um sub-falar que evita a responsabilidade e que propõe a anulação da personalidade. As pessoas afirmam-se pelo que dizem, pela responsabilidade do que afirmam. O ocultar o que se deveria afirmar esconde e apaga a personalidade.
As receitas de cozinha fazem parte da domesticidade literária, reconhecível imediatamente como um factor de apaziaguamento e de satisfação. O que se come é um factor de "distinção" (cf. Bourdieu) e de informação doméstica sobre o que socialmente são os protagonistas. Outros sintomas de domesticidade a p.37: " - Non è verità che mio padre minacciò u zio, queste sono le malelingue, prima di tutte quella disgraziata di me zia Cristina che m'accusò anche a me della morte di so marito e io ci dissi, a me zia, di non mettere le mano sopra a me, cioè a dire di non mettermi nei guai.". O uso do dialecto siciliano é outro aspecto da domesticidade que a literatura "realista" pós-Camilleri desenvolveu. As acções são comuns a qualquer pessoa nas mesmas circunstâncias. 
A literatura do realismo descritivo, de tipo "relatório" actua como reconhecimento da função instrumental da literatura "útil" que se desenvolve para dar a conhecer factos e "histórias" que propõem um posicionamento étipo do autor. Não é por acaso que Paolo di Stefano escreveu um outro livro (romance?) sobre a tragédia mineira em Marcinelle, Bélgica, de 8 de Agosto de 1956: "La catastròfa. Marcinelle 8 agosto 1956", Selerio Editore.
À suivre.