vendredi 18 juillet 2014

Literatura, regimes da verdade e cibercultura - Suplemento de Colóquio/Letras, Lisboa Maio/Agosto 2014 - Manuel Frias Martins - O uso da língua e a sua relação com os leitores 88

Modificado a 19 de Julho de 2014.
Um artigo sobre o futuro da literatura, futuro a longo prazo e baseado na cibercultura, é anedótico. Um artigo sobre a cibercultura poderia ser concebido sem ter em atenção o futuro. Manuel Frias Martins propõe uma visão do futuro da literatura na sua posição a favor da cibercultura, como se a internet e o ciber-funcionamento pelas tecnologias fossem produtoras de cultura em si e por si e se essas culturas, no caso de serem geradas pelos próprios sistemas, fossem "surpreendentes" para os habitantes do globo que somos. As tecnologias desenvolvem-se por serem dadas por realizáveis pelo conhecimento humano. É claro que as tecnologias informáticas vão muito depressa e que os resultados fornecidos podem ser de grande utilidade: ganhou-se uma enormidade de tempo e de conceptualização que demoraria a executar-se se não houvesse memória cibernética. E ainda se hão-de acelerar mais; é evidente. Mas dependentes do trabalho conceptual do pensamento humano. Se hoje ou amanhã, por virtude da rapidez de realização, os dados informáticos vierem a satisfazer processos de, por exemplo, reanimação ou de, por qualquer processo que esteja implicado, uma melhoria no salvamento rápido e eficaz de pessoas em posição maligna, o progresso tecnológico não tem nada de surpreendente nem de "miraculoso". Frias Martins quer dizer-nos que amanhã - trata-se de um futuro, próximo, segundo o autor - a literatura será servida por processos tecnológicos e informáticos que não só melhoram a qualidade do acto literário - já vamos ver qual - mas abrem à literatura um espectro que até agora nunca teve: um futuro brilhante e mais do que nunca aberto às tecnologias do progresso e da intervenção, não só nas literaturas mas também no domínio dos escritores. Mais ainda: no domínio do cérebro dos escritores e dos artistas. Não é mais a sociedade que "informa" o que o cérebro recebe mas a informática, a cibercultura poderosa será a que informará, formaterá e preparará o escritor a escrever o que nunca se escreveu. A confiança de Manuel Frias Martins no futuro e na tecnologia que influenciará o cérebro é total, ao ponto de Nada, mesmo Nada citar contra esta perpectiva unicamente positiva: a literatura será influenciada pela força motora da informática e pela cultura que a ciber-informática produzirá, de modo a convencer Frias Martins a considerar que só haverá vantagens e "milagres" literários - ainda uma vez mais a "teoria do milagre" e a "teoria do milagre informático" funcionam! A literatura não é mais um "acto de linguagem" no qual um ou vários autores - a teoria do autor colectivo está também presente neste artigo - mas é um acto de memorização e de rede que se encontra disponível para uma "nova verdade", um novo "regime da verdade". Manuel Frias Martins pensa numa nova religião e digo "religião" na medida em que o que propõe não tem NADA de negativo; só uma ideologia próxima do religioso poderá conceber um sistema sem falhas. O autor preenche a sua argumentação com variadas citações de autores que contribuíram para a leitura do futuro da literatura através da ajuda que a informática e a cibercultura (!) lhes darão, ajuda que servirá para uma nova visão do mundo literário. Mas que mundo? Manuel Frias Martins nada nos diz sobre as consequências - se consequências houver de tal futuro! - mesmo  no campo da literatura; a sua explicação baseia-se em frases que significam, segundo o que o autor pensa, mas que não dão apoio à argumentação. Os "regimes da verdade" o que são? "Os computadores infiltraram-se nas nossas imaginações do real, criando fantasias acerca de uma outridade não humana (ou de uma humanidade estranhamente mista) sob a forma de robôs, ciborgues, androides, etc, alimentando histórias e enredos de romances e de filmes, ou inspirando pinturas, performances artísticas ou eventos colectivos diversos", escreve o autor a p.6. Os computadores infiltraram-se... os próprios computadores! Ou o que eles veiculam, o que eles têm e que foi alimentado pelos, até agora, humanos? E quem poderá alimentá-los fora os humanos? Os não humanos!: os que elaboram programas a partir dos computadores e para os computadores serão os robots, muito superiores ao humano-homem/mulher e que fornecerão uma nova "fantasia", alimentando "histórias" e "enredos"... Porque, para Manuel Frias Martins, a literatura é formada por enredos, histórias e fantasias que, a partir de agora, terão melhores possibilidades e maiores espectros de trabalho por estarem os computadores e os não humanos a tratar do assunto para uma melhoria das literaturas. A utopia - é sobre a Utopia o n° da revista em questão - poderia ser uma das utopias necessárias para que se desenvolva a necessidade de ver mudar as condições do mundo, sejam elas as condições de injustiça, de fome, a problemática das doenças... uma infinidade de assuntos reais e de interesse humano. As utopias que se inscrevem neste desejo são ainda as humanas; as de Manuel Frias Martins serão as que os robots não humanos desenvolverão e para as quais a próxima utopia da cibercultura e da ciber-literatura são as duas maiores aventuras de enredos e de histórias, de fantasias e de novas formas literárias que não se sabe ainda como classificar; se romance, se poesia... o campo é vasto. Não se apercebe Manuel Frias Martins de que o campo hoje é vasto e complexo, sem que haja necessidade de robots? E que os robots não tratam dos problemas em relação - se falamos agora só de literatura - ao que são para o humano os "actos de linguagem", os vários "contratos" que se formulam quando se fala e quando se escreve? O que deu origem à literatura foi a palavra, oral no seu início, escrita depois. A escrita é uma das funções da organização e do funcionamento (muitas vezes ainda precário) das sociedades, assim como a palavra é a base (contratual) de qualquer "contrato" que se execute entre dois intervenientes, sendo um terceiro o árbitro que "assina" o contrato na presença dos dois interessados. Todos os actos que constituem uma sociedade baseiam-se no uso da palavra contratual, assim como as literaturas - da poesia ao teatro, ao romance... - e no uso dentro ou fora dos códigos que regem as línguas; sem palavras, a literatura oral e a literatura escrita não existem; sem a relação não contratual e ficcional - já que esta é própria de uma finalidade que a literatura não tem - sobre o uso escrito ou oral da palavra e dos "actos de linguagem" ficcionais, a literatura não corresponde a nada, ou seja, não existe. A literatura é uma relação do ou dos indivíduos com os "actos de linguagem" fornecidos pelo vocabulário ou pela memória informática, é certo e se quiserem; é na relação que se estabelece com o uso e no uso da palavra e da constituição dos discursos orais ou escritos que o escritor (ou os escritores) - aqueles que se servem dos "actos de linguagem" para se relacionarem com eles e, através deles, com o social, sabendo que os "actos de linguagem" são complexos, infinitos e, se não ligados a uma intenção contratual, são também contraditórios (ou poderão ser contraditórios...) - que os escritores actuam. A contradição permanente (permanente por estar sempre lá, presente, inevitavelmente) e constante (por não se evitar, ao nível do ficcional - não ao nível do "contrato" que tem que ser apropriado e compreensível...) é a função prioritária dos "actos de linguagem ficcionais" que serão facilitados pelo mundo da fantasia que a informática transmite como outro qualquer suporte. Mas essa fantasia, se não tiver uma relação com os "actos de linguagem" e com a vontade do ou dos autores os utilizarem como "actos de linguagem" que lhes sirvam de intervenção no social, através de ideias, contradições, revoluções, "mises em causes", confrontos... com o que são os outros, incluindo a rede informática e a cibercultura... a literatura não servirá para nada por não ter objecto; ou melhor, por ter perdido a sua função inicial que será a de servir, antes de tudo o autor ou os autores, por mais anónimos que sejam... a não ser que seja um robot... e mesmo os robots têm um nome, são elogiados pelos técnicos e pela ciência do desenvolvimento humano - escrevi humano - e que servem e estão ao serviço, não da cibercultura criada por eles, robots, segundo a visão utópica de Manuel Frias Martins, mas segundo as necessidades criadas e valorizadas pelas circunstâncias humanas. A literatura de Balzac não tem nada a ver com a de Philip Roth, por exemplo; não só na forma mas também no que os "actos de linguagem" de cada um significam; Philip Roth está "informado" por um tipo de sociedade que lhe cria a necessidade de inscrever certos "actos de linguagem" que comportam uma complexidade de tecidos significantes e significativos que englobam uma sociedade inteira que "explica" como Philip Roth escreve; a relação é com o corpo social e o seu vocabulário escolhido. A demonstração de Roth é a que se lê nos seus livros; os "actos de linguagem" estão em relação com uma sociedade robotizada e informatizada embora Roth não recorra a utopias de tecnologias que nos ultrapassarão, criando condições que os escritores de hoje não terão a capacidade de resolver mas que a cibercultura terá! Balzac utilizou "actos de linguagem" que nos informam, hoje, e que serviram, antes de tudo, a sua literatura; e a de mais ninguém. Os sistemas informáticos, como os sistemas linguísticos, judiciais, prisionais, sistemas ligados aos transportes, à defesa dos direitos da mulher, dos menores, a atitudes em relação à pedofilia, às guerras, ao racismo... tudo está incluído nos "actos de linguagem" que uma sociedade pratica e que os escritores usam e escolheram. Sem escolha, um escritor não tem relação com os "actos de linguagem". O "acto de linguagem" é uma estrutura que pertence a cada cidadão que o escolhe, e que servirá a ele próprio como um sistema de análise do seu comportamento e da controvérsia com o corpo social, se houver pretensão à controvérsia, e não serem os "actos de linguagem" pura "assertoridade". Uma análise é o fruto de uma observação dos "actos de linguagem" que serão, no fundo, não "actos falhados", por não serem estes escolhidos, mas actos que pertencem intrinsecamente ao emissor, actos necessários para que o desenvolvimento mental se adeque ao que o escritor quer emitir; as palavras são o resultado de cada utente, não são fornecidas pela informática que "fabricará" (e que já fabrica, por intermédio dos mercados de pressão) por si fantasmas, sem ajuda do biológico e do humano, como Frias Martins pretende. Frias Martins insiste sobre o não biológico e sobre o não humano, duas categorias que os ficcionistas utópicos favoráveis ao desenvolvimento ainda mais industrial ou pós-industrial propõem: um desenvolvimento propriamente tecnologico-informático que desejam ver aplicado às artes, como se os fenómenos artísticos tivessem a necessidade de se completarem com fantasias criadas por maquinaria robótica superior em tudo ao que o homem-mulher fabricam, segundo estes autores e Frias Martins. Não havendo capacidade para melhorar as literaturas, Frias Martins vê os robots escreverem melhor do que os autores, e vê, ainda por cima, os autores servirem-se do que está memorizado nas memórias potentíssimas que se conservam nos aparelhos computarizados. A computarização social interessa-lhe como uma proposta positiva, ainda mais outra. Frias Martins considera a literatura num processo em avanço tecnológico; outros campos nunca existentes farão parte das fantasias!, diz o autor do artigo. Mas foi sempre assim!: a imaginação de Dante não tem nada a ver com a imaginação de Shakespeare, a de Balzac, a de Roth, para citar os mesmos exemplos. As literaturas e as artes vão mudando segundo o que o social lhes reflecte e o que os escritores autónomos consideram. Os computadores estão na ordem do dia, fornecerão o que lá for inscrito, formatizado. O que os computadores poderão fazer é jogar com uma muitíssimo maior velocidade sobre as realidades concebidas pelo indivíduo, ou manipuladas pelos "arquitectos" (em sentido vasto) e outros fazedores de "informações". Mas o que mais sobressai do artigo de Frias Martins é o facto de que NADA de negativo vê. As literaturas serão, para o autor do artigo, todas iguais, todas dependentes das forças do progresso cibernético, estarão todas ao serviço dos progressos e das virtudes da informática; não haverá literaturas fora dos sistemas de produção, contra os sistemas, não dependentes de qualquer exercício de "fantasia" que queiram fornecer ao não humano e ao não biológico como um abecedário preciso que lhe dará o uso que as máquinas infernais poderão transmitir. A criação virá do lado dos positivismos industriais ou pós-industriais - chamemos-lhe cibernético, por agora, se bem que não quero servir-me de termos que dêem origem a fenomenogias utópicas como se os progressos fossem a considerar como necessários para se formatar o cérebro literário, quando ainda não se sabe bem o que é o cérebro, como está constituído e que futuro poderá ter o próprio cérebro, assim como todos os sistemas e redes que o humano (e não o não humano) poderá desenvolver. O que poderá desenvolver significa precisamente que as literaturas de amanhã serão diferentes das de ontem e de hoje. As literaturas sofreram as influências dos sistemas de percepção do mundo. Galileu mudou uma delas, outros melhoraram o conhecimento do funcionamento cerebral, por exemplo... cardiológico... etc. Todos os funcionamentos, sociais, jurídicos, medicinais ou farmacêuticos... todos os sistemas de formação e de informação mudam conforme o que se adquire. O que vem das máquinas, da informática, da cibernética são acções de ajuda fornecidas por um suporte. As máquinas de aceleração ajudam os humanos. A literatura de ajuda já existe; será que Frias Martins vê na literatura o progresso industrial ou pós-industrial e a subordinação das formas de expressão e dos "agentes de expressão" às leis da produção, já que NADA assinala de negativo? O projecto utópico não ajuda nenhuma função necessária do humano; talvez ajude o não humano, o não biológico!? 
O "regime da verdade": "o regime do sentido dos conceitos de poesia e literatura, evitando cair num realismo das ideias de poesia e literatura", p.7. O "regime da verdade" (uma fórmula que interfere com vários sistemas de compreensão que vão do ético ao religioso... O que é a verdade? O que é a verdade literária ou o que será a verdade e o "regime da verdade cibernética"? Nada diz Frias Martins no seu artigo. As fórmulas são vazias e sem significado explicativo. A utopia é baseada num vocabulário de pequena justificação. Outro exemplo é o conceito vasto, segundo o autor, de "literatura electrónica", quando o que o autor desscreve, como exemplos, são várias definições já existentes de literatura feita para os sistemas informáticos e que se servem da informática para a sua produção e a sua prioritária divulgação. Os escritores estarão mais interessados na sua comercialização do que no quererem fazer literatura autónoma. Estes termos não fazem parte do vocabulário de Frias Martins. Os escritores estarão dispostos a tudo para serem reconhecidos pelo sistema, já que usam dos mesmos processos de fantasiar os "actos de linguagem", tendo em conta a divulgação que se julga apropriada quando as forças de difusão de que os sistemas informáticos dispõem atribuem valores aos conhecimentos mais comercializados, aos sistemas que terão maior consulta, quando o ser consultado não quererá dizer nada em relação ao valor, mas às novas necessidades que - essas, sim - os sistemas informativos e formativos informáticos criaram e vão ainda, e com mais força, criar, de modo a subordinar mais ainda o cérebro humano a estruturas que darão "fantasias diferentes" mas em nada autónomas. Frias Martins não fala em autonomia, como disse acima, nem em literaturas que não se abonarão aos sistemas de propaganda fortíssimos que a divulgação cibernética poderá dar àqueles que jogam no mesmo sentido dos sistemas; aqueles que não serão a favor das novas informações de subordinação e de pressão, não terão nenhuma visibilidade. A visibilidade é um acto social, não é provocado inocentemente pela informática e pelos sistemas de difusão do conhecimento, sendo, neste caso, conhecimento tudo o que diz respeito à difusão, desde as notícias sobre Lady Gaga até à morte de Nadine Gordimer.
Frias Martins coloca-se no seguimento das estruturas comerciais dos factos cibernéticos como se as informações só tivessem valor se constituissem uma "motivação imotivada, em virtude da neutralidade psicológica da informação descarregada". Desde que seja a máquina a expor uma informação ela é tratada como "descarregada", "neutralizada pela máquina". Os "actos de linguagem" passam a pertencer à cibernética; o escritor será um constituinte amorfo e neutro, terá uma capacidade de reproduzir o que as informáticas quiserem. A literatura acaba com Frias Martins e a sua cibernética. O "lúdico" é outro dos termos favoráveis, como se as artes estivessem relacionadas com processos lúdicos; de facto, estão... mas por terem sido colocadas pelas indústrias de difusão e pelos métodos de criação, ou melhor, pelos pseudo-métodos de criação propostos para um maior rendimento. Os autores e os artistas, os "agentes de expressão" autónomos preocupam-se, aqueles que se interessam pelo que é uma expressão autónoma, pelo posicionamento do autor literário em relação às estruturas comerciais e aos âmbitos cada vez mais largos dos mercados da expressão pós-industrial ou cibernética (que se multiplicam sem condicionamento dos conteúdos, como é o caso do livro, do filme e da música). Em contrapartida, Frias Martins abre o terreno da pseudo-utopia com a "milagrosa intervenção dos fenómenos ligados à informática" como se as expressões obtivessem melhores resultados, ou seja, mais autonomia e maior complexidade, e como se essa complexidade viesse daquilo que Frias Martins e muitos outros autores chamam de "cibercultura". A complexidade e a autonomia não são fenómenos de hoje; são resultados de muitas propostas artísticas de pessoas (humanas) que quiseram situar-se fora dos sistemas e da força dos sistemas de produção. Frias Martins vem-nos dizer como os escritores deverão integrar-se cada vez mais nos sistemas de pressão que a pseudo-cibercultura forma, ligada que está ao comércio de computadores e de outros aparelhos cada vez mais performantes, é certo, mas que fazem derivar as expressões para os mercados de pressão; os sistemas que Frias Martins considera como renovadores querem atrair os "artistas" para o comércio e para a dependência mais diabólica, baseando-se nestas considerações conceptuais, que parecem abertas, de uma pessoa que pensa no futuro e na renovação das expressões, quando afinal propõe colocar as expressões na dependência dos mercados e dos aparelhos renovadores de velocidade (e de tempo), e de "realidades fabricadas", ligadas a concepções que desviam as actividades cada vez mais para o inútil. Frias Martins não nos diz que o mundo actual fabrica funções desnecessárias em grande escala. Que a maior parte dos indivíduos fabrica-se a partir dos outros, dos sistemas sociais da cópia, da imitação, da despersonalização individual e social, pela falta de responsabilidade, pela incoerência mental até ao desgaste mais inferiorizante e humilhante de sermos todos iguais. O que Frias Martins não nos diz é como sair das estruturas de divulgação cibernética e de pressão artística que estão a fabricar literaturas sem palavras, ou seja, literaturas cujas palavras são imotivadas, como Frias Martins escreve como uma razão positiva, veículos transmissores de reflexões pedidas pelos sistemas repressivos e que se exprimem ainda por palavras por estarmos (ainda) num mundo da transmissão por palavras; quando este mundo quiser, através da cibernética, passar a velocidades muito maiores, os indivíduos serão um jogo electrónico e a sobrevivência será para os que se inscreverem no sistema e na velocidade dele. Os não inscritos serão a eliminar; já hoje a tecnologia elimina aqueles que não têm posses para a realização e que não querem alinhar-se nos sistemas de "facilidades" propostos pelos sistemas informáticos. Os sistemas bancários, os sistemas de informação, de reserva de viagens, de comunicação... Tudo! O mundo está "cibernatizado" e Frias Martins ainda quer que esteja mais, ao ponto de inventar, como muitos outros autores americanos, como Frias Martins nos diz, um sistema utópico - ainda outro (se as utopias eram necessárias por váras razões, hoje as utopias como a da cibernética, servirão só aos miraculosos que esperam dela a satisfação, o lúdico) - criador de maiores forças pós-industriais e que subordinarão os leitores e os escritores a maiores dependências. Para Frias Martins, a literatura cibernética significa uma potência quando as literaturas são o resultado de impotências, de imperfeições e de complexidades cada vez maiores, apesar e independentemente do cibernético – por terem as sociedades evoluído na complexidade e na complexificação dos seus dados e das suas redes (sem que a rede menor do informático e das internets tenha para isso contribuído, a não ser no campo da memorização – nunca no campo da vontade e da consciência, esta última invocada por Frias Martins – e como um suporte entre outros) para um infinito de circunstâncias de que a palavra é um sintoma pobre como todos os sintomas de expressão. A ciberliteratura não virá descomplexificar as sociedades nem simplificar as literaturas, ou seja: o uso da palavra, dos “actos de linguagem” ficcionais, não será alterado na sua imcompetência e na sua irregularidade em relação ao pensamento e às complexidades do pensamento infinito. Quando as máquinas fizerem o trabalho humano, o biológico pode acabar, assim como o humano, por haver substituição, n ão diz directamente Frias Martis mas posso concluir. Aqui, entro no terreno da suposição do futuro, e qualquer suposição é anedótica. Quererá Frias Martins incluir as literaturas no inútil que apontei acima, fazendo entrar o poder ultra-capitalista (o termo "capitalista" já não exprime aqui o que Marx quis dizer; o termo tem hoje outras dimensões e parece-me impotente para a demonstração do poder ligado precisamente ao cibernético que se inventa para a grandeza dos mercados) no sentido de uma orientação do cérebro e de orientação até ao lúdico e para o lúdico das expressões até agora consideradas uma necessidade que se incompleta na sua realização. Achará Frias Martins que o incompleto será compensado pela artimanha cibernética de modo a incluir nas literaturas aquilo que os escritores não dominam por estar a língua e ser a língua um suporte  (mais um, e talvez ainda o principal, a não ser que se sigam as teorias dos americanos que escreveram sobre o assunto e de Frias Martins) ao que se desenrola no cérebro, por ser precisamente a palavra um suporte que não atinge a totalidade do que se quer exprimir. A cibernética pedirá um vomitório do que se passa no cérebro, uma dádiva que os humanos farão aos não humanos, descarregando/deitando nos computadores [ou noutras maquinarias que vejam o dia (ou a noite tenebrosa)] o que passa pelos cérebro e que, segundo as teorias de Frias Martins, a maquinaria viria ajudar o humano a transformar-se num não humano, descarregando o seu cérebro para a máquina memorizante e carregando (download!) o que a máquina terá como matéria para todos os registos, incluído o da ficção. E assim a literatura transforma-se numa outra e maior inutilidade, já que a literatura hoje ligada aos mercados financeiros se deteriora e não fornece senão o lúdico aborrecido. Não a lucidez que as literaturas do presente e aquelas que não fornecem dados aos poderes ultra-cibernéticos não fornecerão transmitem, na medida do imperfeito e da impossibilidade do discurso completo pelos "actos de linguagem ficcionais". A ficção é um elemento fundamental da experiência humana por ser a realização incompleta do que se realiza a mais no cérebro; não é a decantação do que está a mais no cérebro e que não captamos que é interessante; é na sua negatividade, na sua incompletude, na sua irrealização que o trabalho com a língua e com os "actos de linguagem ficcionais" têm uma acção fundamental de descoberta das multiplicidades que se organizam dentro do cérebro. Quando as multiplicidades estiverem à vista - todas! todas! - a literatura não terá mais esta função, esta funcionalidade, termo que Frias Martins aplicaria à cibernética mas que se aplica perfeitamente ao que o escritor produz entre os "actos de linguagem" e a sua memória, o tratamento irregular do seu próprio cérebro. A cibernética de ajuda elimina o trabalho à volta dos "actos de linguagem", sobretudo ficcionais, e elimina o trabalho que a literatura produz. Em contrapartida, no que diz respeito ao ganho de tempo, à memorização e à resolução de equações de vários tipos - sociais, medicinais, espaciais... - a informática e a velocidade cibernética são e estão dentro do humano e das realizações que a consciência humana controla, apesar de, muitas vezes, o que se controla saia dos limites da própria realização: o conhecimento também fabrica escórias. E o conhecimento orientado em relação a um fim cria ainda mais escórias, mais acidentes e maiores falsificações das necessidades. O ultra-capitalismo cibernético defendido por Frias Martins é a frieza do cálculo e do que o lúdico cibernético inventou para desqualificar o cérebro e dar origem ao maior mito que se possa considerar, e que ocupa muitas pessoas, hoje: o de pensar-se que a máquina substituirá o humano, sobretudo o cérebro, já que as próteses (de substituição, precisamente) estão já presentes nos mercados e favorecem muitos aspectos biológicos; são as próteses de ajuda humana.  
À suivre.