jeudi 9 mars 2017

A elaboração do ficcional - O uso da língua e a sua relação com os leitores 142

As literaturas utilizavam todas as considerações estilísticas para a elaboração ficcional. O que significava uma metodologia da imitação não considerada como plágio mas como homenagem-seguimento de um método que tinha dado as suas provas; da imitação passou-se à consideração da originalidade baseada na individualidade; por ser um indivíduo que tinha a produzir uma linguagem apropriada à sua personalidade, o artefacto ganhou originalidade se bem que a imitação tenha continuado a produzir sintomas que definiam uma estética elaborada pelo pensamento em torno das expressões; é essa constituição da "coluna de prestigío" que advém da discussão e da teorização à volta da capacidade de expressão, de início sobre a imitação, depois, com o renascimento e com a consideração da prioridade atribuída ao indivíduo, nas suas considerações jurídicas e sociais, e da atitude artística que se desviou para a originalidade idiossincrática que define o agente expressivo como único; se propõe uma "obra única" ou se produz uma obra que terá capacidade de reprodução sem perda do valor intrínseco, como é o caso do que é escrito, o resultado é idêntico no que diz respeito à capacidade de autonomia se assim agente de expressão o apresentar. A escrita ficcional desenvolveu-se, portanto, tendo em vista o sair da nomenclatura metodológica que atribuía ao expressivo valores que lhe vinham da discussão e da comparação analítica, e dos pensamentos críticos, para criar uma autonomia apropriada à crítica dos códigos expressivos e ao que eles mantinham de condicionante, de redutor, se não de repressivo ou de condescendente com os poderes. Os poderes exprimiam-se através das expressões, pediam às expressões que qualificassem os princípios de gestão do social de modo a garantirem a presença do poder. As expressões serviam o poder ao mesmo tempo que o poder se introduzia nelas. A capacidade de produção do sublime e do belo, as duas características mais em evidência desde Kant, que não associa os poderes ao expressivo a não ser na sua qualidade de elementos de grandeza, resumia outras atitudes, microscópicas ou macroscópicas, que as expressões continham, de modo a resolverem a diferença entre a natureza e a produção voluntária de beleza feita pelo agente de expressão. O artefacto autónomo ganhou um estatuto mais independente assim como o agente expressivo. É dentro destas latitudes que o agente expressivo actual procede, procurando a autonomia, o que significa que se afasta dos sistemas introduzidos na "coluna de prestígio", tendo em consideração o valor histórico que a "savantização" atribui à obra e atribuiu ao artista, coluna que assimilou-fagocitou as ideias registadas desde que a ficção existe, e que, por sua vez, assinala os sistemas que a alimentaram, de modo a criar um "prestígio" que só as expressões "savantizadas" garantem, por terem constituído essa coluna através dos tempos como registo crítico e analítico do que constitui uma obra expressiva - aquilo que se chama uma obra artística. As literaturas fazem parte das expressões "savantizadas". De Dante a Henning Mankell as literaturas evoluíram sabendo que a "coluna de prestígio" atribuía e defendia os princípios que fundaram e fundam o ficcional, embora nem todas as "literaturalidades" estejam presentes em todas as obras, as particularidades que determinam o que é o ficcional, atitudes que não evoluem, com as análises e os confrontos controversos, do mesmo modo e nas mesmas proporções em todas as formas literárias, se bem que devam figurar em alguma proporção para que lhes seja atribuído o qualificativo de "literatura". Os mercados reconhecem que, sem a "coluna de prestígio" atrás de cada forma de escrita ficcional, não existe uma classificação do que é o literário; existe um mínimo a exigir aos escritores para que a produção seja aceite e qualificada de literatura. Esse mínimo é agora estabelecido de preferência pelos mercados financeiros segundo as intenções e uma finalidade a atingir, e não necessariamente pela "coluna de prestígio" que servirá hoje unicamente de definidora do que é a literatura; a "coluna de prestígio" serve de barómetro, de cânone básico para definir o ficcional. Os mercados saíram dos princípios da "coluna de prestígio" analítica e fundadora para alimentarem as expressões de outros elementos que, apesar de não negarem a "coluna de prestígio", deverão alimentar uma "necessidade" de leitura, propondo, para facilitá-la, uma redução dos elementos definidores, um esqueleto, um canevas simplificado do que é a ficção literária. 
O ficcional elabora-se com "actualizações": actualização é o significar que o social tem agora uma relação sem poder, por ser uma relação crítica e analítica, com o expressivo que está atento ao que o social, como reflexo, lhe transmite; a actualização consiste nesta capacidade do expressivo de actualizar-se na relação com o social considerando que ao social pertencem os sistemas e sub-sistemas organizativos que dão valor ao administrativo que governa os habitantes. O expressivo é um dos factores de gestão do democrático se encarado pela via da "actualização". Neste termo não está incluída a gestão de qualquer moda, de modalidades que representem um tempo de poder mas sim o seu contrário: pertencer ao actual sem beneficiar dos valores que os mercados atribuem às expressões, tendo em consideração que as "colunas de prestígio" elaboraram o histórico das expressões e que, estas, se consideram em controvérsia com a História e com o presente. No tempo presente está a consciência e a responsabilidade da leitura do que se passa entre as populações sem que as expressões sejam alimentadas por uma ideologia ou que o social peça ao expressivo de o servir, de servir a sociedade ou o político administrativo que, por sua vez, se impregna nas expressões desde que elas se estabeleçam num estatismo ou num historicismo que procure o sustento da "coluna de prestígio". As "actualizações" relacionam-se com a época de cada agente expressivo. As propostas artísticas expressivas definem-se pela forma como desequilibram - ou equilibram, no caso de aceitarem as condições limitativas - os factores sociais que, atraídos pelo expressivo e pelo valor mercantil eventual do expressivo, tentam pertencer intrinsecamente à proposta artística. O social fagocita o expressivo se não existe uma "actualização"; quer isto dizer que a obra se dispõe a aceitar os limites estabelecidos pelo social administrativo que absorve o expressivo até ser só sinónimo de valor social adquirido à custa do histórico. O valor adquirido pelo histórico poderá ser visível e interessante, poderoso e grandioso, representativo mais do poder do que do expressivo, embora muitas expressões tenham conservado uma possibilidade de autonomia mesmo quando ao serviço dos poderes. Tudo depende das épocas. No passado, as expressões sustinham forçosamente a pretensão dos poderes, representavam os privilégios e, como tal, o estético dirigia-se aos privilégios e aos privilegiados, se bem que as obras destes períodos pudessem pertencer à categoria de obras de expressão; salvo que o grau de autonomia se situava a um fraco nível. Estas expressões tinham capacidade "actualizante" mas a "actualização" afinava-se pelos poderes. Ou seja, as expressões pouco carácter crítico emitiam. A crítica subjugava-se aos valores. O artista e a crítica elaboravam uma sociedade do sublime baseada no elogio, na pretensão de grandiosidade. E esta grandiosidade existia, funcionava, merecia os elogios na medida em que o elogio significava a integração no sistema de valores. Estabelecia-se uma correspondência, uma adaptação entre (e d)os elementos participantes à volta do artefacto artístico. O sublime e o belo constituíam as parcelas valorizativas da presença histórica que a filosofia organizava à volta do expressivo como uma matéria que lhe pertencia. Os filósofos coordenavam, com os estetas, as condições de orientação das "colunas de prestígio". A racionalidade da estética filosófica garantiu a constituição de uma ciência das artes e das considerações sobre o que é o artístico. A definição constituía uma noção sobre as formas expressivas em vez de verificaram, analisando, como se exprimiam as expressões conforme as épocas, os sintomas sociais ou a gradução dos valores. Coloco esta teorização contra a proposta filosófica e estética de Lukács e na aproximação de uma teorização analítica proposta por Marcuse ou Adorno. A revisão crítica da relação entre o social e o expressivo não implica uma subordinação do expressivo ao social; muito menos à sociedade. O expressivo realiza o que lhe compete, a saber que o expressivo é um elemento de consideração da crítica social e, portanto, da controvérsia democrática. 
À suivre. 

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